Por: Alan Robert e Anderson Luis
A PEC pelo fim da escala 6×1 possui um forte apoio do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que preza pela aprovação da proposta ainda no primeiro semestre de 2026. Engatilhada pelo movimento Vida Além do Trabalho (VAT), de Rick Azevedo, e encabeçada pela deputada Erika Hilton (PSOL), ela também é defendida pelos sindicalistas através do princípio de que “menos [horas trabalhadas] é mais [produtivo]”. Mas divide opiniões, pois, na perspectiva dos empresários, a redução pode significar a diminuição da oferta de empregos e o fechamento de pequenos negócios.
Diante da preocupação da categoria empresarial, o presidente prometeu cautela na implementação da PEC e destacou a importância da participação do setor para o aprimoramento da proposta.
“Não se escondam de fazer qualquer proposta para nós. A construção civil é imprescindível para o futuro deste país. […] A jornada de trabalho vai ser aplicada levando em conta a especificidade de cada categoria. Ninguém vai impor isso na marra. É preciso respeitar a realidade de cada categoria, de cada profissão, de cada setor econômico, para fazer as coisas resultarem no benefício que nós queremos para a sociedade brasileira”, afirmou Lula após receber reivindicações da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) durante a abertura do Encontro Internacional da Indústria da Construção (Enic), na última terça-feira (19).
A emenda constitucional segue tramitando na Câmara dos Deputados e deverá seguir para o Senado Federal logo após ser aprovada na Comissão Especial. Mesmo sob a previsão de unidade entre oposição e governo na etapa atual, ela já enfrenta clima de desconfiança na próxima fase.
O senador Angelo Coronel (Republicanos) evitou tecer comentários sobre a PEC antes da submissão do relatório do deputado Léo Prates (Republicanos) até o dia 27, mas confessou enxergar “oportunismo eleitoral” na defesa de Lula pela celeridade da proposta em ano de eleição presidencial.
“É um oportunismo do período. É uma PEC eleitoral, um projeto eleitoreiro”, disse ao Aqui Só Política.
O comentário é uma reação à tentativa do petista de acelerar o percurso da emenda no Congresso, ao encaminhar um projeto de lei com urgência constitucional, pedindo a redução da jornada para 40 horas semanais e o abandono da escala 6×1 sem redução salarial. Agora, ficou acordado que o PL servirá para regulamentar pontos específicos de categorias impactadas, além de poder ser usada para ajustar a norma vigente da nova proposta.
Para além dos desdobramentos no Congresso, o debate está imerso num cenário onde a taxa de desemprego já registrou um aumento de 6,1% neste primeiro trimestre de 2026, de acordo com o Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua). Além disso, 1 em cada 7 trabalhadores são afastados dos seus postos de trabalho devido a sintomas de transtornos mentais e comportamentais, conforme indica o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Para ampliar o entendimento sobre as outras nuances dessa discussão, o AsP entrou em contato com o advogado trabalhista David Augusto para apurar os possíveis impactos de uma redução da jornada de trabalho no Brasil.
Impactos jurídicos e efeitos da proposta na prática trabalhista

Segundo o jurista, a proposta exigiria mudanças estruturais na legislação e nas relações trabalhistas, já que a Constituição Federal, no artigo 7º, estabelece o limite de 44 horas semanais, base que hoje permite a escala 6×1. “Essa alteração na carga horária exigiria alterações legislativas substanciais e uma adaptação significativa por parte das empresas”, afirma David.
Na avaliação do advogado, setores como comércio, saúde, transporte e indústria teriam de reorganizar suas operações para manter o funcionamento, o que poderia levar à necessidade de ampliação de equipes. Ele também destaca o princípio da irredutibilidade salarial. “Uma redução na jornada não pode resultar automaticamente em diminuição proporcional dos salários”, explica, apontando que isso aumentaria o custo da hora trabalhada para os empregadores.
Augusto afirma ser favorável à redução da escala 6×1, por entender que o trabalho não deve implicar a perda da vida pessoal. Segundo ele, “quando um trabalhador se dedica ao emprego durante seis dias seguidos e tem apenas um dia para se recuperar, resta muito pouco tempo para estar com a família, cuidar da saúde, estudar ou, simplesmente, recarregar as energias físicas e mentais”. O advogado acrescenta ainda que “essa questão vai além de apenas conforto ou conveniência; é uma questão de dignidade humana e proteção social”, ressaltou.
Burnout, sobrecarga e os efeitos da escala 6×1 na saúde mental

O psicólogo clínico e pós-graduando em Análise do Comportamento Aplicada, Renan Costa, explica que uma rotina de trabalho com apenas um dia de descanso pode impactar diretamente a saúde mental do trabalhador, já que “o sistema nervoso precisa de tempo de recuperação”. Segundo ele, quando há pouco descanso, a pessoa passa a viver em um estado de alerta contínuo, o que gera acúmulo de desgaste físico e emocional ao longo do tempo.
Na avaliação dele, esse processo pode resultar em sinais como irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono, cansaço constante e perda de interesse por atividades antes prazerosas. O profissional também destaca que, muitas vezes, “um único dia de folga acaba sendo usado só para tentar se recuperar minimamente da semana, sem realmente descansar”.
O especialista afirma ainda que a escala 6×1 pode contribuir para casos de ansiedade, estresse e burnout, especialmente quando há pressão e dificuldade de desconexão do trabalho. Ele explica que “o burnout geralmente não aparece de uma vez. Existe um desgaste progressivo”, que pode evoluir para exaustão emocional e esgotamento profundo.
Alan Robert é jornalista, formado pela Faculdade de Tecnologia e Ciências – UNIFTC. Seu primeiro contato com a política foi por meio do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais no Estado da Bahia – ASSUFBA. Atualmente, atua como jornalista de entretenimento e política nos portais Alvo dos Famosos e Aqui Só Política com Cintia Kelly.
Anderson Luis é um estudante de jornalismo na Universidade Federal da Bahia – UFBA. Já atuou como pesquisador para o Atlas da Noticia e atualmente é estagiário do Aqui Só Política com Cintia Kelly.

