A Rockbridge Network, grupo conservador dos Estados Unidos fundado pelo atual vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, iniciou nos últimos meses uma aproximação com empresários e políticos brasileiros para avaliar uma possível atuação no país. A movimentação envolveu contatos com nomes do mercado e da política, além da elaboração de documentos que detalhavam modelo de financiamento e áreas de interesse da organização. As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (25).
Entre os empresários que tiveram contato com representantes da rede estão Joesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG Pactual, segundo a apuração do jornal. Ambos foram procurados, mas não comentaram. Os candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) também conheceram integrantes do grupo e não se manifestaram à publicação.
A Rockbridge reúne empresários, investidores e executivos conservadores nos Estados Unidos. Durante a chamada Semana do Brasil em Nova York deste ano, o cofundador Chris Buskirk participou de um encontro com empresários brasileiros mediado por Talles Gomes, fundador da Easy Taxi e da G4 Educação e integrante da rede nos Estados Unidos.
Apesar das articulações, a implantação não avançou. A Rockbridge afirmou à Folha que chegou a criar uma entidade jurídica destinada ao projeto brasileiro, mas que a iniciativa foi posteriormente rejeitada e nunca recebeu recursos ou iniciou atividades.
A Folha teve acesso a materiais de apresentação e documentos relacionados ao processo de adesão à estrutura planejada para o Brasil. Um deles apresentava duas categorias de participação. A primeira, chamada Keystone, previa contribuição anual de US$ 500 mil. A segunda, denominada Visionary, estabelecia pagamento anual de US$ 1 milhão.
As contribuições poderiam ser realizadas em dólar, criptomoedas, ações de companhias abertas ou fechadas e por estruturas corporativas e trusts. O documento indicava a Rockbridge Brazil LLC, criada nos Estados Unidos, como destinatária dos pagamentos.
As duas modalidades dariam acesso a encontros fechados, videoconferências e dois eventos anuais da organização. A categoria Visionary acrescentaria participação no conselho estratégico da estrutura brasileira, além de encontros privados com grandes doadores e políticos internacionais.
Outro material analisado pela Folha descrevia a Rockbridge Brasil como um “fundo de venture capital político, dedicado à construção de uma plataforma para investir na infraestrutura política e social brasileira”.
A proposta apresentada nos documentos previa três frentes principais de atuação: mídia, formação de jovens e atividade legislativa. Na primeira área, haveria apoio e organização de veículos conservadores; na segunda, financiamento de movimentos em ambientes acadêmicos; e, na terceira, fornecimento de dados e pesquisas a parlamentares de direita.
As prioridades seriam definidas por conselhos temáticos formados por cidadãos e empresas com atuação nas respectivas áreas.
Outro documento obtido pelo jornal, intitulado “Conselho de Tecnologia — O Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional”, apresentava possíveis benefícios de um alinhamento do empresariado brasileiro aos Estados Unidos na disputa tecnológica com a China. O material, datado de abril, tinha como destinatário o então pré-candidato à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (PL).
A proposta previa a criação de um conselho não governamental composto por empresários, executivos e investidores do setor tecnológico. Segundo o documento, a iniciativa teria potencial para gerar impacto econômico superior a US$ 100 bilhões em dez anos, além de mais de 500 mil empregos e desenvolvimento de 12 setores estratégicos.
Essas projeções constavam da própria proposta e não representam resultados obtidos, já que o conselho não chegou a ser constituído.
A composição sugerida reuniria 23 integrantes, sendo 19 estrangeiros e quatro brasileiros: Talles Gomes; Mario Araripe, fundador da Casa dos Ventos; David Peixoto, fundador da Pax AI; e Pedro Sang, identificado no documento como CEO da Rockbridge Brasil.
Parte dos brasileiros mencionados nos materiais contestou a vinculação à iniciativa. A Pax AI afirmou que David Peixoto nunca recebeu convite para participar do conselho, não integrou qualquer iniciativa relacionada à Rockbridge Brasil e não autorizou o uso de seu nome.
Pedro Sang, por sua vez, disse ter sido apresentado à Rockbridge em outubro de 2025 por André Marinho, candidato ao Governo do Rio de Janeiro pelo Novo, mas negou ter assumido função formal na organização.
Segundo Sang, o interesse estava relacionado à possibilidade de reunir investidores e empresários de tecnologia e atrair investimentos para o Brasil. Ele afirmou que a iniciativa está suspensa desde maio.
Talles Gomes também afirmou que o projeto não saiu do papel. “O conselho de tecnologia foi apenas uma proposta que ficou no papel: nunca foi constituído, nem se reuniu”.
Procurada pela Folha, a Rockbridge apresentou uma versão diferente daquela descrita nos documentos que circularam no Brasil. Segundo a organização, a estrutura jurídica brasileira foi criada diante do interesse manifestado por brasileiros, mas a proposta acabou rejeitada.
“A Rockbridge criou a empresa [entidade jurídica] exclusivamente prevendo a possibilidade de levar adiante o negócio proposto. A iniciativa não prosseguiu, e a empresa nunca recebeu recursos, entrou em operação ou foi utilizada para qualquer atividade empresarial.”
A entidade também negou que tivesse a intenção de participar da política brasileira. Segundo a Rockbridge, a proposta discutida era de um fórum empresarial. A organização afirmou ainda que brasileiros produziram documentos e fizeram declarações utilizando seu nome sem conhecimento ou autorização.
André Marinho também negou ter elaborado os documentos que detalhavam metas de atuação e condições de adesão à estrutura. “Reitero que este material jamais foi enviado nem apresentado por mim à campanha do Flávio Bolsonaro, a autoridades ou organizações americanas nem foi objeto de qualquer reunião ou tratativa”, afirmou. Marinho declarou ainda que não integra a Rockbridge e não pretende se associar ao grupo.
A movimentação da Rockbridge no Brasil ganhou repercussão durante a campanha presidencial depois que o candidato Renan Santos (Missão) acusou pessoas ligadas ao grupo de apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Em discurso realizado em Fortaleza, no início de setembro, Renan também relacionou Talles Gomes e Pedro Sang a interesses envolvendo terras raras brasileiras. Os dois negaram as acusações.
“A Rockbridge é uma iniciativa eleitoral norte-americana com o objetivo bem claro de eleger pessoas alinhadas ideologicamente com eles e fazer negócios. O interesse deles aqui vai passar por dinheiro e por uso de tecnologia na campanha —é o que eles fazem em todos os lugares”, disse Renan à Folha.
A afirmação representa uma acusação do candidato e não uma conclusão da apuração. Até o momento, não foram apresentadas provas públicas de que a Rockbridge tenha financiado a campanha de Flávio Bolsonaro. A própria organização e os brasileiros citados negam repasses ou participação eleitoral.
Após os embates públicos, Talles Gomes apresentou uma notícia-crime contra Renan por calúnia, difamação e injúria eleitoral. “Nunca houve, por meu intermédio ou com meu conhecimento, qualquer recurso estrangeiro destinado a campanha eleitoral no Brasil, direta ou indiretamente”, afirmou Gomes.
A controvérsia também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou uma notícia de fato pedindo a apuração de uma possível entrada de recursos estrangeiros na campanha de Flávio Bolsonaro. O pedido tomou como base, entre outros elementos, as declarações de Renan Santos e os contatos entre brasileiros e integrantes da Rockbridge.
Na própria representação, Lindbergh ressalta que não afirma que os repasses efetivamente ocorreram, mas sustenta que as acusações deveriam ser investigadas. O PT também levou ao Supremo pedido relacionado ao caso, buscando apuração sobre eventual financiamento estrangeiro da campanha presidencial do candidato do PL.

