Por Anderson Luis
No quórum político da Bahia, seja do Legislativo municipal ou estadual, existe uma força sobre-humana que habita esses espaços, ainda que de forma reduzida. Uma força que se origina da necessidade de falar mais alto, de lidar com mais demandas do que a de um parlamentar comum a esses espaços. A sua presença diminuta se dá por questões estruturais de uma sociedade que ainda está em construção, mesmo que aos passos de uma criança que está aprendendo a andar.
Mas não se engane, pois essas potências tendem a ser ainda mais fortes por conta disso. Não por acaso, mas porque precisam agarrar com unhas e dentes o direito de lutar pelos baianos. Neste domingo (10), o AsP traz os desafios dessas mães aguerridas, que alternam entre a maternidade e o ato de legislar.
Na Câmara Municipal de Salvador, uma mãe solo e avó se destaca, a vereadora Aladilce Souza (PCdoB). A enfermeira por formação tem sua trajetória marcada pela atuação na presidência do Sindsaúde-BA, em movimentos sociais e serviços comunitários. Filiada ao Partido Comunista do Brasil desde 1979, ela já acumula 5 mandatos como vereadora na capital.
Embora o seu filho esteja na idade adulta, 38 anos, e já experiencie a paternidade, no início da sua carreira a parlamentar precisou levá-lo para atividades sindicais. Na época, a companhia do pequeno foi a forma que ela encontrou de exercer a sua maternidade e se manter atuante.
“E eu consegui compatibilizar a criação do meu filho com as atividades profissionais em dois, até três empregos. Já cheguei a ter três empregos na área de enfermagem durante o período. E também, ainda assim, eu fazia política, nunca deixei de fazer política. E muitas vezes levava meu filho para as atividades, né? Eu fui casada duas vezes, tive uma vida familiar, mas nunca deixei de fazer política. E na maior parte da minha vida com meu filho eu fui mãe solo. […] Nunca negligenciei meu filho, fiz um esforço danado. Me privei de muita coisa para garantir uma boa educação para ele, uma boa condição de vida, a melhor que eu podia dar”, contou.
A vivência de Aladilce como chefe de família atualmente é a realidade de 51,0% das baianas, de acordo com dados do Censo Demográfico 2022, pesquisa mais recente divulgada pelo IBGE em 2024. Em Salvador, a porcentagem é ainda mais expressiva, com 55,8% de mulheres à frente de domicílios. Ou seja, 535.069 lares.
Mas, apesar das dificuldades enfrentadas na chefia do seu lar, a parlamentar não se arrepende da trajetória e avalia que a maternidade lhe auxiliou no crescimento pessoal.
“[…] Mãe na política é desafiador, é dormir pouco, fazer um esforço muito grande pra poder se instalar naquele lugar. Eu estou no quinto mandato como vereadora e hoje eu não tenho mais os encargos de mãe, mas passei por tudo isso e não me arrependo. Acho que foi uma experiência muito boa pra mim como pessoa, uma experiência de vida onde se tem a certeza de que está fazendo uma atividade na vida para o coletivo.”
Outra vereadora que concilia o seu lugar na tribuna soteropolitana com a maternidade é Marcelle Moraes (União Brasil). A médica veterinária e ativista pela defesa dos animais está eleita para o seu terceiro mandato e possui “três filhotinhos”: uma menina de 2 anos, um gato e um cachorro.
A ex-secretária de Sustentabilidade e Resiliência (Secis), reconhecida por zelar pela proteção e bem-estar animal há mais de 16 anos, enxerga a sua trajetória na política como o desbravamento de um sistema patriarcalista e destaca o impacto da sua luta no futuro da filha.
“Ser mãe, ser mulher na política é um desafio muito grande, porque a gente precisa vencer todo esse patriarcado, todo esse machismo. Eu já sou bastante insistente na política. Historicamente, nós somos minoria. Então é um ambiente que é um pouco desafiador. Mas ser mulher e política não só é um desafio, como também me traz um desejo de inspirar, de trabalhar ainda mais. Porque eu não estou apenas representando as mulheres e os animais. Eu também represento a minha filha, que é uma mulher e que vai ver a mãe na ação política”, disse.
Baianas legislando em espaço reduzido
Marcelle Moraes e Aladilce Souza ocupam um espaço reduzido de apenas 9 vereadoras na Câmara Municipal, que representa apenas 20,93% do quórum de 43 parlamentares. A quantidade se mantém desde a legislatura de 2024, quando houve um leve aumento no percentual, que era ainda menor, de apenas 18,6%. Na Câmara, elas se juntam a Cris Correia (PSDB), Débora Santana (PSDB), Ireuda Silva (Republicanos), Marta Rodrigues (PT), Roberta Caires (Republicanos), Eliete Paraguassu (PSOL) e Isabela Sousa (Cidadania).
Na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), a presença feminina é ainda mais desigual quando comparada ao quantitativo masculino. De 63 parlamentares, 8 são mulheres — o que representa apenas 12,7%, desde 2023. Fazem parte deste cenário Fátima Nunes (PT), Olívia Santana (PCdoB), Maria Del Carmen (PT), Ludmilla Fiscina (PV), Katia Oliveira (União Brasil), Cláudia Oliveira (PSB), Soane Galvão (PSB) e a presidente do Legislativo estadual, Ivana Bastos (PSD).
Ivana, que é mãe e avó, também marcou a história da política baiana ao se tornar a primeira mulher a assumir a presidência da ALBA em 190 anos de sua existência. A conquista ocorreu em março de 2025, mas ela já ocupava o cargo de forma interina desde fevereiro, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou o terceiro mandato consecutivo do deputado Adolfo Menezes (PSD) inconstitucional. A deputada foi eleita com 118.417 votos em 2022, sendo a mais votada no estado.

Anderson Luis é um estudante de jornalismo na Universidade Federal da Bahia – UFBA. Já atuou como pesquisador para o Atlas da Noticia e atualmente é estagiário do Aqui Só Política com Cintia Kelly.

