É preciso coragem para fazer show no Vão Livre do Masp sem ter o nome conhecido local ou nacionalmente. Mas ela foi lá e fez, em 1992. Daniela Mercury tem sido ao longo das décadas sinônimo de inventividade.
Mas não somente. Neste domingo, ela fez o que os grandes nomes das artes fazem. Foi assim na ditadura militar, na abertura política, no movimento das Diretas Já, no impeachment de Collor. Corajosamente, Daniela usou a sua arte para cobrar ética dos políticos, falar de forma didática o porque devemos rechaçar à PEC da Bandidagem e o PL da Anistia.
Quando a democracia fica nas cordas e a política indigesta, grandes artistas extrapolam à arte. Daniela Mercury puxou o trio do movimento contra à PEC da Bandidagem e à anistia, no Cristo da Barra. Com ela, Wagner Mouro, Nanda Costa, Baco Exu do Blues e Lan Lanh.
No início do texto, expus que a coragem sempre esteve presente na vida da Rainha Má. A grande interrogação que fica é: cadê seus confrades da axé music? De que barro foram feitos?
Os artistas de milhões – em seguidores nas redes sociais e nos cachês -, ignoram solenemente as consequências devastadoras do projeto que é salvo conduto para marginais ocuparem o Parlamento.
Voce, leitor querido, pode justificar: “ah, mas muitos artistas estão fazendo shows por aí”. Claro que existem compromissos que não podem ser adiados, remarcados, mas será que eles não poderiam ter gravado um vídeo em apoio ao movimento? Lembrando que os atos não são lulistas, petistas ou qualquer outro ‘ista’. É um movimento da sociedade civil.
Você, meu querido leitor, já sabe, mas no momento se faz necessário a repetição, falar à exaustão o que representa a PEC da Bandidagem (Ou Prerrogativas). Em síntese, a proposta dificulta processos criminais contra parlamentares (deputados e senadores), impondo a necessidade de um aval da Câmara ou do Senado para que um parlamentar possa ser processado no Supremo Tribunal Federal (STF).
Enquanto a proposta macabra está sendo discutida, os tais artistas de milhões continuam a pedir aos incautos que os acompanham nos shows para levantar as mãos e tirar o pé do chão. O puro suco da alienação conveniente.
Cíntia Kelly é jornalista e diretora do Aqui só Política.

